Marcos Frankenthal z"l

Marcos Frankenthal z”l, avô de Lilia Frankenthal, foi uma das figuras centrais da organização da vida judaica em São Paulo: jornalista, tipógrafo, educador, dirigente sionista, presidente da Organização Sionista Unificada e um dos responsáveis pela construção das instituições que ainda hoje sustentam a comunidade, como a Federação Israelita de São Paulo (FISESP).

Esta página homenageia e conta a história de um homem que compreendeu, antes de muitos, que memória não é só saudade: é responsabilidade. E que pertencer a uma comunidade, sendo sua neta,  não é apenas receber uma herança — é cumprir um dever.

De Jerusalém a São Paulo: memória, responsabilidade e construção comunitária

Nossa história começa numa geração que atravessou continentes, ergueu instituições, fundou jornais, organizou campanhas, acolheu imigrantes, sustentou escolas, mobilizou solidariedade e compreendeu uma verdade simples: uma comunidade não permanece viva apenas porque se lembra. Ela permanece viva porque se organiza.

Marcos Frankenthal z”l, avô de Lilia Frankenthal, Presidente e fundadora da AVIVA•18, foi um desses homens raros. Não apenas participou da vida comunitária judaica brasileira. Ajudou a construí-la.

Foi educador, jornalista, tipógrafo, intelectual, orador, dirigente sionista, presidente da Organização Sionista Unificada do Estado de São Paulo, presidente do Magbit e uma das figuras decisivas da formação institucional judaica paulista no século XX.

Sua vida explica muito dos valores que norteiam o que a AVIVA•18 é hoje: pertencimento com responsabilidade. Tradição transformada em ação concreta.

Um judeu de Jerusalém que ajudou a construir São Paulo

Marcos Frankenthal era judeu sefaradi nascido em Jerusalém, pertencente ao antigo núcleo judaico da Terra de Israel - o Antigo Yishuv. Seu pai o Rabino Moshe Shlomo Frankenthal z'l, conhecido como o Gigante da Torá era grande estudioso, respeitado por sua inteligência e erudição.

Marcos, ao deixar sua terra natal e, antes de se fixar no Brasil, passou por diversos países, especialmente a Inglaterra. Esse percurso lhe deu algo que marcaria toda a sua atuação pública: uma visão ampla do mundo judaico, da diáspora e da necessidade de organização.

Ao chegar ao Brasil, radicou-se inicialmente no Rio Grande do Sul, onde atuou como professor de português e hebraico em escolas judaicas ligadas às colônias agrícolas. Antes de ser dirigente, foi mestre. Antes de organizar instituições, ajudou a formar pessoas.

Essa origem importa. Porque Marcos Frankenthal não via comunidade como abstração. Via como escola, jornal, reunião, arrecadação, acolhimento, biblioteca, palavra impressa, presença física e dever moral. Coisa antiga, séria, feita com papel, tinta e compromisso -  quando “engajamento” ainda não era botão de curtida.

A palavra impressa como construção comunitária

Em São Paulo, Marcos Frankenthal dedicou-se ao jornalismo e à indústria gráfica. Fundou o jornal Mosaico Paulista, montou a Tipografia Frankenthal e exerceu o ofício gráfico por cerca de cinquenta anos.

A tipografia não era apenas um negócio. Era uma ferramenta de existência coletiva.

Na década de 1920, a partir de sua tipografia, surgiu a ideia de publicar um periódico em iídiche para a comunidade judaica paulista. Em 1928, esteve à frente da Idische Velt - O Mundo Israelita - uma das primeiras tentativas de criar em São Paulo uma publicação judaica séria, de caráter literário, social e comunitário.

Em 1931, fundou e dirigiu o San Pauler Idiche Tzeitung, também conhecido como Jornal Israelita de São Paulo ou Gazeta Israelita de São Paulo. O jornal, de forte tendência sionista, circulou até 1941 e reuniu nomes expressivos da intelectualidade judaica, como José Nadelman, Isaac Raizman, Elias Lipiner, Salomão Steinberg e Nelson Vainer.

Ali se registrava a vida comunitária. Ali se debatia identidade. Ali se preservava memória.

E, por algum tempo, o jornal contou também com um suplemento em português, A Notícia, dirigido por seu filho Naum Frankenthal, então estudante de Direito. Esse detalhe é bonito e profundo: a geração dos imigrantes falava em iídiche; seus filhos começavam a falar também ao Brasil, em português. A continuidade não rompia a tradição. Traduzia a tradição para o futuro.

Sua tipografia também publicou obras comunitárias importantes, como a história da Ezra, preservando registros que, sem esse esforço, poderiam ter se perdido. Marcos Frankenthal compreendia algo que toda instituição deveria compreender: sem memória documentada, a história vira fumaça. E fumaça, convenhamos, o vento leva.

Organização Sionista Unificada: o centro da responsabilidade

Marcos Frankenthal foi um dos grandes nomes da reorganização da comunidade judaica em São Paulo no pós-guerra.

Em 1945, a Organização Sionista de São Paulo foi reorganizada sob sua presidência, reunindo lideranças como Rabino Fritz Pinkus, Horácio Lafer, Moysés Kauffmann, Jacob Klabin Lafer e Raphael Markman.

À frente da Organização Sionista Unificada do Estado de São Paulo, Marcos Frankenthal não atuou como figura simbólica. Atuou como articulador. Como organizador. Como alguém capaz de transformar dor histórica, esperança nacional e solidariedade comunitária em estrutura concreta.

No ato solene de 31 de julho de 1945, na Sala Azul do Cine Odeon, em São Paulo, Marcos Frankenthal presidiu uma cerimônia marcada pela memória de Theodor Herzl e pela reafirmação do direito do povo judeu ao seu lar ancestral. Em seu discurso, associou a vitória da Força Expedicionária Brasileira na Europa à vitória da justiça sobre a força, afirmando a ligação moral entre brasileiros e judeus diante da tragédia e da reconstrução.

A frase central de sua trajetória poderia ser esta: esperança sem organização é apenas desejo. Ele organizava.

FISESP: quando comunidade vira instituição

A atuação de Marcos Frankenthal também está ligada ao processo de criação da Federação Israelita do Estado de São Paulo — FISESP.

A reunião para a criação da Federação ocorreu em 23 de dezembro de 1946, na sede da Organização Sionista Unificada de São Paulo. A partir daquele movimento, a comunidade judaica paulista passou a estruturar de modo mais centralizado e racional suas atividades de assistência, arrecadação, recepção de refugiados, acolhimento de novos imigrantes, educação e representação comunitária.

Esse ponto é essencial para entender a importância de Marcos Frankenthal.

Ele não apenas presidia uma entidade. Ele ajudava a desenhar um modelo institucional. A FISESP nasceu da necessidade de coordenar esforços dispersos e dar forma pública à responsabilidade coletiva. A comunidade judaica de São Paulo precisava de mais do que generosidade. Precisava de organização. Precisava de método. Precisava de instituições capazes de atravessar crises, acolher pessoas e falar em nome de uma coletividade.

Essa linha de liderança e compromisso também seria continuada por seu genro, Raphael Markman, figura igualmente ligada à vida comunitária paulista.

Há famílias que deixam bens. Há famílias que deixam nomes. A família Frankenthal-Markman deixou também uma forma de servir: construir instituições para que a comunidade não precise depender apenas da boa vontade do momento.

Magbit, campanhas e solidariedade concreta

Marcos Frankenthal também presidiu o Magbit, tendo papel central nas campanhas de arrecadação e mobilização comunitária.

Essa atuação revela uma marca permanente de sua liderança: solidariedade, para ele, não era sentimento decorativo. Era dever organizado.

Arrecadar não era “pedir dinheiro”. Era construir confiança. Era mostrar que cada pessoa fazia parte de uma rede maior. Era transformar pertencimento em responsabilidade prática.

A comunidade só permanece de pé quando cada um entende que não está apenas dentro dela — está comprometido com ela.

1948: sobriedade diante da independência de Israel

Em 1948, com a proclamação do Estado de Israel e o início imediato da guerra, Marcos Frankenthal teve uma postura de rara lucidez.

Na manhã seguinte à independência, quando muitos poderiam se deixar tomar apenas pela euforia, ele chamou a comunidade à responsabilidade. Sua mensagem foi sóbria, dura e profundamente judaica: ainda não era hora apenas de celebrar. Era hora de sustentar, proteger, organizar e agir.

“Ainda não há lugar para a alegria. O sangue judeu está sendo derramado.”

Essa frase sintetiza sua grandeza. Marcos Frankenthal compreendia que a alegria judaica nunca foi ingênua. Ela sempre conviveu com responsabilidade, memória e dever.

Naquele momento, sua liderança ajudou a transformar comoção em ação: campanhas, apoio material, mobilização pública, suporte comunitário e sustentação moral diante de um cenário internacional delicado.

Foi também nesse contexto que recebeu o convite para exercer a função de Cônsul de Israel em São Paulo. Recusou.

A recusa não diminui sua importância. Ao contrário: revela sua independência. Marcos Frankenthal escolheu permanecer na linha de frente comunitária, com liberdade para mobilizar, articular e servir sem as amarras do protocolo diplomático. Há pessoas que precisam de cargo para ter autoridade. Outras têm autoridade justamente porque não precisam do cargo.

A família como continuidade: Naum, Leonardo e Lilia

O legado de Marcos Frankenthal não se encerrou nele.

Seu filho Naum Frankenthal participou diretamente da imprensa judaica, dirigindo o suplemento em português A Notícia, ligado ao jornal de seu pai. Sua atuação simboliza a passagem entre mundos: da comunidade imigrante de língua iídiche para uma geração judaico-brasileira capaz de falar também em português, dialogar com o país e preservar identidade sem isolamento.

Seu filho Leonardo Frankenthal, pai de Lilia Frankenthal, levou adiante outro eixo dessa herança: a palavra como instrumento de defesa, responsabilidade e coragem pública. Na advocacia criminal, Leonardo tornou-se conhecido como o Leão dos Tribunais. A tribuna, nele, era também continuidade: o mesmo respeito pela palavra, a mesma firmeza diante da injustiça, a mesma convicção de que certas causas exigem voz, técnica e coragem.

Sua neta Lilia Frankenthal, filha de Leonardo, desde o 7 de outubro de 2023 dedica-se a combater o antissemitismo. Os discursos de ódio contra a comunidade judaica se expandiram e diante da necessidade de organização, em 2025 nasceu a AVIVA•18.

De Marcos a Naum, Leonardo, e Lilia, há um fio claro: memória não é ornamento. É mandato.

“Cumpriu o seu dever de judeu”

Um pequeno recibo assinado por Marcos Frankenthal, como presidente da OSU em 1948, guarda uma frase imensa:

“Cumpriu o seu dever de judeu.”

À primeira vista, parece apenas um documento administrativo. Mas não é. É uma declaração de pertencimento.

Essa frase expressa uma ideia antiga e poderosa da vida judaica: somos responsáveis uns pelos outros.

O dever, aqui, não aparece como imposição fria. Aparece como compromisso moral. Como chamado à solidariedade. Como lembrança de que pertencer a uma comunidade não significa apenas receber uma história, um nome, uma tradição ou uma memória. Significa também cuidar, sustentar, apoiar e estar presente.

Esse recibo fala de doação. Mas fala, sobretudo, de responsabilidade.

E, no fundo, fala de algo universal: quando uma comunidade reconhece que cada vida importa, que cada família importa, que cada pessoa ferida importa, ela se torna mais forte do que o medo, mais antiga do que o ódio e mais resistente do que a indiferença.

Por que esse legado importa para a AVIVA•18

A AVIVA•18 nasce como associação independente de prevenção, educação, proteção e responsabilização diante do antissemitismo, do racismo e dos discursos de ódio.

Mas ela nasce também como continuidade.

Marcos Frankenthal organizou uma comunidade em tempos de reconstrução, guerra, imigração e incerteza. A AVIVA•18 organiza conhecimento, protocolos, orientação, acolhimento e resposta institucional em um tempo de novos códigos de ódio, novas formas de desumanização e novas ameaças à vida judaica.

Mudaram as ferramentas. O princípio permanece.

Antes eram jornais, tipografias, assembleias, sinagogas, campanhas e reuniões presenciais. Hoje são relatórios, guias, formações, atuação jurídica, educação, monitoramento digital, advocacy e proteção de vítimas.

Mas a lógica é a mesma: não basta sentir. É preciso agir.
Não basta lembrar. É preciso proteger.
Não basta reagir ao ódio. É preciso interrompê-lo.

A AVIVA•18 honra Marcos Frankenthal e traz seu ensinamento de que comunidade forte não é a que grita mais alto. É a que se organiza melhor. Precisa ter voz, independente de governos, conveniências e momento histórico.

Memória que protege

Esta página é uma homenagem familiar, comunitária e institucional.

Familiar, porque Marcos Frankenthal z”l foi avô de Lilia Frankenthal.

Comunitária, porque sua atuação ajudou a consolidar instituições que ainda hoje sustentam a vida judaica organizada em São Paulo e no Brasil, como a fundação da FISESP em 1946.

Institucional, porque seu legado aponta para o futuro da AVIVA•18: transformar memória em responsabilidade, responsabilidade em ação e ação em proteção.

A história judaica nunca foi feita apenas de sobrevivência. Foi feita de reconstrução. De união. 

Marcos Frankenthal reconstruiu com palavra, tinta, escola, jornal, campanha, instituição e presença.

A AVIVA•18 segue esse caminho.

Porque honrar o passado é carregar adiante aquilo que ele nos confiou.

Recibo da Campanha de Emergência Pró Israel — São Paulo, 1948, assinado por Marcos Frankenthal z"l.

Cumpriu o seu dever de judeu

Mais do que uma frase, define um dos principais valores da comunidade: somos responsáveis uns pelos outros.

Nossa união é nossa força, há mais de 5.000 anos